O terceiro dia da 31ª Semana de Engenharia do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP) movimentou a sede da instituição com duas palestras de forte caráter técnico e alinhadas aos desafios contemporâneos da Engenharia. O encontro foi aberto pelo presidente do IEP, Eng. Eletricista Nelson Luiz Gomez, que agradeceu a participação do público e destacou a diversidade da programação ao longo da semana.
O presidente do IEP lembrou que o evento será encerrado no sábado, durante o tradicional jantar dançante, quando será entregue o prêmio Engenheiro do Ano ao professor Roberto Hosokawa, engenheiro florestal paranaense, aposentado da Universidade Federal do Paraná, com trajetória internacional no Japão e nos Estados Unidos, e que já trabalhou ao lado de nomes de projeção mundial, entre eles Stephen Hawking.
A apresentação do painel ficou a cargo do Engenheiro Mecânico João Groque Junior, diretor financeiro do IEP, que deu as boas-vindas aos convidados e agradeceu o apoio dos patrocinadores pela viabilização da programação presencial e digital. Em seguida, ele citou os palestrantes da noite: o Engenheiro Mecânico e especialista em Engenharia de Segurança do Trabalho Roberto Serta, da Roka Engenharia, que abordou o tema “NR-12 – Segurança no Trabalho em Máquinas e Equipamentos”; e Felipe Almeida Fontana, Eng. Civil, especialista em gestão de projetos complexos do Grupo Boticário, com a palestra “Engenharia aplicada a grandes projetos industriais”.
Caminhos para a conformidade
A alta taxa de acidentes envolvendo máquinas e equipamentos no Brasil foi o ponto de partida da palestra do engenheiro Roberto Serta sobre a NR-12. Os números impressionam: em média, 186 mortes por ano, quase um trabalhador por dia útil. As mãos seguem como as principais vítimas: 135 mil dedos lesionados, fraturados ou amputados anualmente.
“A gente precisa lembrar que segurança não é detalhe. É prevenção. E prevenção começa com comportamento: você só coloca as mãos onde você enxerga”, alertou Serta, reforçando a atenção a riscos óbvios e ocultos. “Não coloque as mãos em superfícies que você não vê. Parece exagero, mas é assim que acontecem muitos acidentes”, completou.
Criada em 2010, a NR-12 passou por intensa resistência inicial. Sua complexidade foi subestimada até que, em 2013, fiscalizações rigorosas interditaram plantas industriais em todo o país. Mesmo após quase 15 anos, a norma continua evoluindo, com traduções de novas normas técnicas e atualizações constantes.
A abrangência é ampla: a NR-12 cobre todo o ciclo de vida da máquina, do projeto, fabricação, importação, comercialização, instalação, operação até à manutenção e descarte. “Máquina não é só aquilo que está em uma linha de produção complexa. É qualquer equipamento que tem movimento não gerado pela força humana”, explicou. Motores elétricos, pneumáticos, hidráulicos e turbinas entram nesse escopo.
Por isso, a norma se aplica a todos os ambientes onde exista maquinaria, ou seja, indústrias alimentícias, perfumarias, agronegócio, postos de gasolina, oficinas, elevadores, supermercados e muito mais. “O Brasil não tem 5% do seu parque de máquinas adequado à NR-12. Esse é o tamanho do desafio”, afirmou.
Evitar acidentes
A palestra destacou a importância da análise de riscos. Serta acentuou que “nenhuma proteção resiste ao comportamento inseguro. Por isso, gestão, treinamento e procedimentos são tão importantes quanto a tecnologia instalada”.
Entre as orientações à segurança do trabalhador, citou que as empresas devem manter pisos limpos, áreas de circulação livres, ferramentas organizadas e corredores dentro das larguras mínimas. As instalações elétricas devem estar adequadas à NR-10, com painéis adequados, sinalização e dispositivos corretos. “Chave geral não é botão liga/desliga. E nunca deve ser usada como tal”, advertiu. Ainda mencionou a aplicação dos 5S segurança com limpeza, organização e disciplina que reduzem riscos e melhoram a visão do operador sobre anomalias. Por exemplo, “não é apertar um botão. É entender o que está sendo desligado. A parada de emergência precisa ser analisada no contexto da máquina”.
Segundo Serta, grande parte das máquinas no país chega sem manuais completos, sem engenharia aplicada e sem histórico técnico. Isso compromete a manutenção e a segurança. A NR-12 exige: manuais em português, procedimentos operacionais e de manutenção, plantas elétricas e esquemas atualizados e documentos acessíveis à CIPA, sindicatos, SESMT e Ministério do Trabalho. “Sem documentação, não existe manutenção segura. E sem manutenção segura, não existe conformidade”, resumiu.
A norma reforça ainda aspectos ergonômicos (altura de painéis, alcance de botões, postura do operador) e riscos adicionais, físicos, químicos, biológicos, calor, ruído, poeira, fuligem e espaços confinados. Durante a manutenção, o palestrante destacou o uso do LOTO (Lockout/Tagout) para bloqueio seguro de energia. A prática ainda é negligenciada. “Não adianta seguir o manual do fabricante só quando convém. Manutenção é engenharia aplicada”.
O engenheiro ainda apresentou dispositivos que devem ser utilizados na indústria como sensores de tampa e porta, tapetes de segurança, cortinas de luz (muito comuns em dobradeiras), scanners a laser, chaves de segurança, botoeiras de emergência e sistemas de proteção mecânica fixa e móvel. Ele reforçou que tecnologia sozinha não resolve, porque “sem procedimentos e treinamento, até o melhor scanner vira enfeite”.
Gestão da NR12
Ao encerrar a apresentação, Serta detalhou as etapas essenciais para uma boa gestão da NR-12, um processo que, segundo ele, começa muito antes da instalação de qualquer dispositivo de segurança. O primeiro passo é o inventário de máquinas, base para todo o planejamento. Na sequência, vêm a análise de riscos, conduzida com respaldo em normas técnicas, e não em “achismos”.
Com essas informações, elabora-se o diagnóstico, que indica o que está conforme e o que precisa ser corrigido. A partir daí, estruturam-se o plano de ação, com as recomendações de adequação, e o projeto técnico, envolvendo áreas mecânica, elétrica e de automação. Só então entram em cena a execução das melhorias, a validação e a gestão contínua da manutenção — etapa que, como destacou, mantém a NR-12 “viva”.
“Muita gente quer começar pelo item seis: instalar grade, botão, sensor. Mas a adequação começa no planejamento, não na furadeira”, ironizou. E reforçou que a NR-12, não pertence apenas à Segurança do Trabalho. “Operação, manutenção, engenharia, automação, qualidade, RH… todo mundo faz parte. Risco zero não existe, mas o estado da técnica precisa ser perseguido diariamente”.
Engenharia aplicada a grandes projetos industriais
“O cenário industrial brasileiro vive uma transformação profunda. A perda de protagonismo da indústria tradicional no PIB, a ascensão da agroindústria, a pressão dos juros altos e a queda dos investimentos criam um ambiente de cautela, e de oportunidades para quem sabe tomar decisões técnicas mais inteligentes”, observou Felipe Almeida Fontana, ao iniciar sua apresentação.
De acordo com ele, a Engenharia deixou de ser apenas técnica. Hoje, ela é uma alavanca direta de resultados financeiros. “Cada escolha que fazemos no início de um projeto impacta o caixa, a rentabilidade e a competitividade da empresa”.
Fontana aponta alguns fatores que hoje influenciam diretamente as decisões de investimento no setor. O primeiro é a mudança na própria representatividade da indústria: enquanto a agroindústria avança, a indústria tradicional perde participação no PIB, alterando a lógica dos aportes. O segundo obstáculo são os juros elevados. “No Brasil, o custo de oportunidade pesa. Com taxas altas, investir na operação precisa ser realmente vantajoso”, afirma.
Também pesa a redução do CAPEX, movimento que leva empresas mais cautelosas a adiar investimentos. Por fim, ele destaca uma mudança de postura empresarial: sai de cena a expansão a qualquer custo e ganha terreno uma visão focada em suficiência, eficiência e maior vida útil dos ativos. Para o engenheiro, indicadores financeiros como EBITDA e fluxo de caixa deixam claro o impacto direto da engenharia na saúde do negócio.
Fontana reforça que boas decisões técnicas prolongam a vida útil de equipamentos e evitam substituições prematuras. “Uma escolha errada hoje vira um custo gigante daqui a cinco anos. Projetar bem é pensar no ciclo de vida completo”, diz.
Estratégias
Para ilustrar sua apresentação, Fontana trouxe estratégias que podem ser aplicadas a grandes projetos industriais, e que estão sendo adotadas na nova fábrica do Grupo Boticário, em Pouso Alegre (MG), que terá um investimento de R$ 1,8 bilhão. Começou explicando a aplicação da metodologia FEL (Front End Loading). “Cada etapa é uma decisão estratégica. Quanto antes decidimos, mais barato é mudar. Quanto mais tarde, mais caro é errar”, resume. Segundo ele, a metodologia define seções de pilares, tipo de cobertura, sistemas elétricos e demais escolhas de engenharia detalhada, que influenciam diretamente o desempenho e o custo da obra.
Comentou também como estratégias a análise funcional, o método MOSCOW e o conceito de ciclo de vida do ativo. “Perguntar ‘para que isso existe?’ economiza milhões”, afirma Fontana. “O MOSCOW nos obriga a separar desejo de necessidade. E o ciclo de vida evita que a gente compre barato para pagar caro lá na frente”.
Outra estratégia é desenvolver projetos integralmente em BIM, que permite construir duas vezes: primeiro no computador, depois na vida real. E na segunda vez, com muito menos erro. Entre os principais ganhos estão a detecção antecipada de interferências, o planejamento 4D, a precisão dos quantitativos e a redução de desperdícios, elementos que contribuem para a otimização do CAPEX.
Adotar ESG como pilar de eficiência industrial é fundamental. “Buscar soluções de pré-fabricação, por exemplo, reduzem em até 40% a geração de resíduos”. Para Fontana, o tema deixou de ser tendência para se tornar critério decisivo. “ESG deixou de ser discurso. Hoje, rastreabilidade de suprimentos atrai fundos verdes e reduz riscos. E contratar mão de obra local transforma impacto social em vantagem competitiva”, destaca.
Mudança cultural
Fontana defende que a segurança precisa ser incorporada desde o projeto, não tratada como custo adicional. “Projeto bom é aquele que ninguém precisa subir em andaime para fazer manutenção. Segurança não é despesa, é blindagem contra paradas e indenizações”, afirma. Ele reforça ainda a importância do Lean Construction e do Last Planner System (LPS), que descentralizam o planejamento e envolvem os executores no processo decisório.
Na avaliação do engenheiro, uma obra eficiente deve operar com a lógica da manufatura. “Lean na construção é mudança cultural. É olhar para o fluxo, eliminar desperdício e fazer o básico com excelência”, diz. O registro sistemático das causas raiz, como falta de materiais ou falhas de programação, é indispensável para evitar reincidências. “Se o problema acontece toda semana e ninguém registra, ele vai continuar acontecendo toda semana”.
Segundo o palestrante, evitar estratégias modernas de engenharia pode sair muito mais caro. “O barato hoje vira um prejuízo gigantesco amanhã. Nosso papel é encontrar a solução que gera mais valor com o menor custo, e isso exige coragem técnica”.
Para concluir, Fontana reforça a mudança de papel da engenharia diante do cenário econômico atual. “O gerente de construção não é mais o cara da obra. Ele é gestor de ativos. Cada real precisa voltar multiplicado para a empresa. Quando conectamos técnica e estratégia financeira, atravessamos o mercado desafiador e saímos mais fortes na retomada”.







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