O quarto dia da 31ª Semana de Engenharia do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP) abriu com as boas-vindas do presidente da entidade, o Eng. Eletricista Nelson Luiz Gomez. Ele destacou a relevância dos temas em discussão para o setor e lembrou a “robustez das palestras já realizadas ao longo da semana”, reforçando o papel do evento na atualização técnica da comunidade profissional.
Na programação da noite, o público acompanhou duas abordagens complementares ao exercício da Engenharia: “Avaliações e Perícias”, apresentada pelo Eng. Civil Luciano Ventura, e “AeroSim e a compreensão das ações do vento”, com o Engenheiro Aron Letchacovski Zavelinski. Ambas ampliaram o debate sobre precisão técnica, segurança e inovação, pilares que, segundo o presidente, sustentam a prática responsável da Engenharia no país.
Ciência dos dados
Luciano Ventura destacou como a estatística se tornou o pilar das avaliações e perícias. Segundo ele, o avanço tecnológico ampliou drasticamente o volume de informações disponíveis. “Hoje lidamos com soluções que dependem de conhecimento matemático e, muitas vezes, da criação de novas ferramentas estatísticas”, afirmou. Ventura lembrou que, em 2025, o mundo deverá gerar 181 zettabytes de dados, impulsionados por buscas, imagens, vídeos e interações digitais produzidas “a cada minuto, em escala assustadora”.
No setor imobiliário, esse fluxo massivo de informações já transforma o trabalho dos avaliadores. “Anúncios, transações, dados urbanos, laudos, imagens: tudo é criado a cada segundo no Brasil”, observou. Ventura citou números que ajudam a dimensionar o cenário: um único banco produz 3.800 laudos por dia, e apenas o programa Minha Casa, Minha Vida (faixa 1) reúne 146 mil processos. A tributação também cresce sobre esse universo; ITBI, IPTU, ITR e ITCMD somaram quase R$ 90 bilhões em 2023. “Nosso trabalho impacta diretamente a arrecadação pública, por isso é tão estratégico”, disse.
O Engenheiro enfatizou que o uso de big data e novas ferramentas tornou-se inevitável. Aplicativos, softwares de avaliação, linguagens como Python e R e métodos de ciência de dados passaram a integrar a rotina do profissional. “Não basta saber usar um aplicativo. É preciso ter visão global, entender estatística e conseguir operar diferentes ferramentas”, alertou. Ele também destacou a complexidade dos dados não estruturados, imagens, vídeos e registros dinâmicos, que já superam em volume e desafio os tradicionais dados tabulares usados nas avaliações.
Modelos de linguagem
A inteligência artificial ocupa hoje papel central na engenharia de avaliações. Ventura citou os modelos de linguagem, como ChatGPT, Gemini e Cloud, que já auxiliam na elaboração de relatórios, verificação de inconsistências e simulações. “A tecnologia é fantástica, mas exige cuidado para não ultrapassar limites legais”, ponderou. Ele também mencionou o avanço dos robôs humanoides e dos sistemas de captura 3D, que começam a apoiar inspeções e vistorias. “Estamos entrando na era dos levantamentos rápidos e acessíveis, feitos até com o celular”, disse.
Ao abordar o marco regulatório, Ventura reforçou as mudanças introduzidas nas perícias pela Resolução 956, pela Recomendação nº 3 e pela nova Norma 13.752, publicada no final de 2023. “A norma tem validade imediata e muitos peritos ainda não estão aplicando. Atualização é fundamental”, destacou. As definições de vícios, anomalias e requisitos técnicos ganharam maior precisão, aumentando a responsabilidade do profissional. “Se você não tiver segurança sobre o que está colocando no laudo, é melhor deixar isso claro. Uma conclusão mal fundamentada pode inviabilizar uma empresa ou prejudicar uma família”, advertiu.
Para Ventura, o futuro aponta para modelos híbridos entre IA e Engenheiros, auditorias de dados em tempo quase real, robôs de vistoria e gêmeos digitais de imóveis. A essência, porém, permanece a mesma: rigor técnico. Ensaios, equipamentos especializados, drones, câmeras, softwares de modelagem e métodos não destrutivos continuarão exigindo preparo. “Perícia é responsabilidade. Exige estudo contínuo e fundamentação sólida”, concluiu.
Engenharia do vento
Aron Letchacovski Zavelinski destacou a importância da engenharia de vento, área ainda vista como nichada, mas que, segundo ele, “afeta a vida de todo mundo”. Zavelinski lembrou que seu trabalho idealmente “deve ser invisível”, pois, quando o projeto funciona, a população nem percebe a complexidade envolvida. O tema ganhou ainda mais relevância após a recente catástrofe no Oeste do Paraná, que destruiu cidades inteiras. “O problema é que as pessoas só se preocupam depois que acontece”, afirmou.
O Engenheiro explicou que a engenharia de vento se divide em duas grandes áreas: estrutural e ambiental. A primeira trata das pressões exercidas sobre edificações; a segunda, de efeitos sobre o ambiente urbano, como dispersão de poluentes e conforto de pedestres. Como referência, ele utilizou a norma NBR 6123, base regulatória brasileira para estimar cargas de vento. “As normas não surgem do nada; são resultado de décadas de conhecimento acumulado”, ressaltou.
Ao abordar a parte estrutural, Zavelinski detalhou como a velocidade do vento, fator que quadruplica a pressão quando dobrada, exige estudos específicos de climatologia e aerodinâmica. Por isso, parâmetros como topografia, rugosidade do terreno e dimensões da edificação influenciam diretamente no cálculo das cargas. O fator topográfico, por exemplo, pode duplicar ou até triplicar a pressão em construções próximas a taludes. “Muita gente acha que isso não importa, mas, em vários casos, é o ponto mais crítico do projeto”, alertou.
Análises dinâmicas
Outro desafio é a camada limite atmosférica, responsável por perfis de vento distintos conforme o entorno urbano. Regiões densas, com grande rugosidade, apresentam rajadas mais intensas; zonas abertas tendem a ter vento mais uniforme. O palestrante também abordou a complexa correlação temporal e espacial das pressões, destacando que estruturas grandes não recebem o vento de forma coordenada. “Não dá para simplesmente somar os máximos da fachada inteira; a força efetiva é menor”, explicou.
Na aerodinâmica, Zavelinski lembrou que boa parte das respostas ainda depende de ensaios em túnel de vento, dada a natureza empírica das interações entre fluxo e edificações. Formas com cantos vivos, por exemplo, geram zonas de sucção extremamente intensas. Modelagens mais sofisticadas, como análises dinâmicas e aeroelásticas, são necessárias apenas em estruturas muito altas ou flexíveis, como torres de 300 metros ou pontes estaiadas. “Cada caso é um caso; generalizar quase nunca funciona”, pontuou.
O Engenheiro encerrou com uma breve análise climatológica, destacando a necessidade de atualizar o mapa nacional de velocidades básicas, criado em 1977. Observou inconsistências e lacunas nos dados meteorológicos, que impactam diretamente a avaliação de riscos. “O Brasil mudou, o clima mudou, e nosso mapa não acompanhou”, disse. Para ele, compreender o vento, suas forças, padrões e extremos, é essencial para evitar tragédias e projetar cidades mais seguras.








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