O Instituto de Engenharia do Paraná (IEP) promoveu, nesta terça-feira (7), o evento “Mulheres Curitiba Visão 2050”, reunindo especialistas e lideranças femininas para debater o futuro urbano da capital sob a perspectiva de gênero. O encontro propôs reflexões sobre como o novo Plano Diretor pode incorporar políticas mais inclusivas, com foco em segurança, qualidade de vida e protagonismo das mulheres nas próximas décadas.
A programação foi estruturada em dois painéis: “A Cidade como Suporte Vital e Pulsar Cultural” e “Raízes, Empreendedoras e Políticas Verdes para 2050”, abordando desde planejamento urbano até o papel da cultura e do empreendedorismo feminino na revitalização dos territórios.
Participaram do debate a empresária e escritora Maria Lopes Bonamigo, com atuação no comércio, gastronomia e moda circular no Centro Histórico; a produtora cultural Michelle Hesketh, fundadora de festivais e diretora de projetos de grande escala; a vereadora e urbanista Laís Leão, especialista em gestão urbana e meio ambiente; e a arquiteta Noélia Carnasciali, doutora em Gestão Urbana e integrante da equipe de revisão do Plano Diretor de Curitiba. A mediação foi da arquiteta Caren Silva, especialista em gestão de projetos e com trajetória internacional nas áreas de urbanismo e planejamento.
Ampliar vozes e perspectivas
Na abertura, o presidente do IEP, Eng. Eletricista Nelson Luiz Gomez, destacou o compromisso da instituição com a ampliação de vozes no debate urbano. “O Instituto de Engenharia do Paraná se soma a este debate com a convicção de que pensar Curitiba até 2050 exige, antes de tudo, ampliar vozes e perspectivas. O evento nasce desse compromisso: reunir experiências, conhecimento técnico e sensibilidade social para projetar uma cidade mais justa, segura e inclusiva para todas as mulheres”.
Ele reforçou a necessidade de uma mudança estrutural nas políticas públicas. “Não se trata apenas de planejamento urbano, mas de uma mudança de paradigma. Precisamos incorporar, de forma estruturada, a perspectiva de gênero nas políticas públicas, no desenho da cidade e nas decisões estratégicas”.
Ainda segundo Gomez, o protagonismo feminino é central para cidades mais sustentáveis. “Acreditamos que o protagonismo feminino, seja na cultura, no empreendedorismo ou na gestão pública, é fundamental para transformar territórios em espaços de pertencimento, autonomia e sustentabilidade”.
Planejamento urbano e escuta ativa
A condução do encontro ficou a cargo da coordenadora da Câmara Técnica de Arquiterua e Urbanismo do IEP, a arquiteta Elise do Carmo Bonato. “É uma honra conduzir um encontro que nos convida a projetar uma cidade onde a estrutura urbana dialogue com a força feminina, consolidando um futuro mais inclusivo e sustentável”, destacou. “Até 2050, vislumbramos uma Curitiba com ruas mais seguras, espaços de cuidado fortalecidos e uma vida cultural pulsante”.
Ela também projetou os impactos esperados para as próximas décadas. “Até 2050, vislumbramos uma Curitiba com ruas mais seguras, espaços de cuidado fortalecidos e uma vida cultural pulsante, construída por mulheres que planejam, empreendem e transformam territórios”.
A mediadora do evento, a arquiteta Caren Silva destacou a integração entre técnica e dimensão humana no planejamento. “Convidamos a pensar a cidade não apenas como estrutura física, mas como um organismo vivo, que acolhe múltiplas formas de existência e relações. Ao integrar dados urbanos e potência cultural, buscamos caminhos para uma Curitiba em que as mulheres não apenas ocupem espaços, mas liderem transformações”.
Caren ressaltou que a proposta é entrelaçar o conhecimento técnico com a dimensão humana, projetando uma Curitiba de 2050 como um ecossistema vibrante, inclusivo e regenerativo.
Cidade, cultura e pertencimento
Noélia Carnasciali trouxe uma reflexão conceitual sobre o futuro urbano. “Quando pensamos Curitiba em 2050, estamos lidando com esse ‘não lugar’ que, ao mesmo tempo, também pode ser um ‘bom lugar’. É essa tensão que move o planejamento urbano.”
Ela enfatizou a importância da escuta na construção de políticas públicas. “Trazer a perspectiva de gênero para o Plano Diretor é, antes de tudo, um exercício de escuta. Não basta perguntar se as mulheres podem falar, é preciso saber se estão sendo ouvidas”.
Destacou desigualdades históricas na ocupação dos espaços urbanos. “O espaço urbano não é neutro. Ele reflete valores culturais que produziram desigualdades concretas na forma de circular, acessar e permanecer na cidade”.
Michelle Hesketh reforçou o papel da cultura como eixo estruturante. “A cidade se sustenta, antes de tudo, pelas conexões que conseguimos construir. A cultura não é apenas entretenimento, ela é comportamento, é a forma como vivemos e nos relacionamos”.
E chamou atenção para os desafios contemporâneos. “Vivemos um tempo de excesso de estímulos e, paradoxalmente, de profunda desconexão. Pensar 2050 exige olhar para agora e reconstruir laços, criando espaços que promovam encontros reais”.
Empreendedorismo e políticas públicas
A empresária Maria Lopes Bonamigo abordou os desafios do empreendedorismo feminino. “Empreender sendo mulher ainda é um desafio diário, marcado por obstáculos como a falta de apoio, o preconceito e a insegurança urbana”.
E destacou a relação entre mobilidade e desenvolvimento econômico. “A mobilidade e a segurança são questões centrais para nós, mulheres. A dificuldade de deslocamento impacta diretamente nossos negócios e nossa qualidade de vida”.
A vereadora e urbanista Laís Leão trouxe a perspectiva da gestão pública. “Pensar 2050 é entender que as decisões tomadas agora vão impactar diretamente as próximas décadas. A cidade precisa ser pensada a partir do cuidado”.
Segundo ela, a presença feminina já começa a transformar os espaços de decisão. “Hoje somos cerca de 30% na Câmara, o maior número da história, e isso já muda a forma como os debates acontecem”.
Reconhecimento e próximos passos
Durante o evento, a Engenheira Janice Kazmierczak (diretora técnica do DER/PR), e a Eng. Larissa Vieira (Engenheira do DER/PR e fiscal da obra da Ponte de Guaratuba) receberam menção honrosa concedida pela deputada estadual Márcia Huçulak. “É uma alegria reconhecer trajetórias que representam não apenas excelência técnica, mas também a força e a superação das mulheres em espaços historicamente desafiadores”, afirmou a parlamentar.
A deputada destacou a importância da representatividade. “Quando mulheres chegam a posições de decisão, abrimos caminhos para outras, rompendo barreiras e inspirando novas gerações”. E argumentou que ver mulheres à frente de projetos de grande porte é a prova de que estamos avançando. Quando ocupamos esses espaços, abrimos caminhos para outras”, afirmou.
Ao agradecer a homenagem, a Engenheira Larissa Vieira destacou a admiração pelas mulheres que atuam na política e em áreas tradicionalmente masculinas. “Esses exemplos servem de inspiração para seguir com determinação na engenharia, setor onde a presença feminina ainda é minoritária”, afirmou. Ela também ressaltou a confiança recebida da diretora técnica do DER/PR, Janice Kazmierczak, ao ser convidada para fiscalizar a obra. “Foi um desafio que trouxe grande aprendizado”, disse. Larissa acrescentou que a liderança de Janice contribui para ampliar a participação feminina em cargos de destaque. “Nem sempre o reconhecimento vem de dentro das próprias instituições, por isso essa homenagem tem um valor ainda maior”, completou.
Já a engenheira Janice Kazmierczak afirmou que a menção honrosa representa um reconhecimento importante em um ambiente ainda predominantemente masculino. “Muitas mulheres ainda enfrentam inseguranças ao assumir funções de liderança, enquanto homens, por vezes menos preparados, avançam com mais confiança”, observou. Para ela, é fundamental que as profissionais reconheçam sua própria capacidade. Ao comentar a obra, destacou que “a Ponte de Guaratuba é resultado de um trabalho iniciado em 2020, com etapas técnicas, jurídicas e ambientais complexas”. Segundo Janice, é gratificante ver o projeto sendo entregue à sociedade. “É um trabalho conduzido com excelência, dedicação e competência, com participação marcante de mulheres”, concluiu.
*Fotos de Rafael Pto e Maristela Parigot
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Assista ao evento completo abaixo ou pelo Canal do IEP no YouTube:
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