O Instituto de Engenharia do Paraná, por meio da Câmara Técnica de Agronegócios, realizou nesta quinta-feira (23/04), no Centro de Eventos da entidade, a palestra “Cultivares de Macieira no Brasil”, ministrada pelo engenheiro agrônomo Ivan Dagoberto Faoro, mestre em Genética e Melhoramento e doutor em Recursos Genéticos Vegetais, pesquisador da Epagri/Estação Experimental de Caçador José O. Kurtz.
Na abertura, o presidente do IEP, Eng. Eletricista Nelson Luiz Gomez, destacou a programação contínua da instituição. Disse que o IEP tem realizado muitos eventos, cursos e visitas técnicas, como à Cooperativa Witmarsum, além de cafés da manhã com palestras e lançamentos de livros, levando aos associados conhecimento, aprendizado, novidades e tendências de mercado e das profissões que integram o Instituto. “Esta palestra sobre cultivares de macieira certamente trará também conhecimento e técnicas sobre a cultura, e desejamos a todos uma proveitosa apresentação”.
A vice-coordenadora da Câmara Técnica de Agronegócios, Jacqueline Mara Kozakevitch Teixeira, ressaltou o alcance do tema. “Essa palestra não é apenas sobre maçã. Estamos aqui para falar sobre inovação, persistência e a força da integração entre ciência e campo”. Disse ainda que com esse evento o IEP reafirma seu papel de conectar saberes, pessoas e soluções para o desenvolvimento sustentável, e que este encontro nos inspire a produzir melhor, pensar mais longe e fortalecer uma cadeia construída com pessoas.
Já o coordenador da Câmara Técnica de Agronegócios, Eugênio Libreloto Stefanello, contextualizou o cenário estadual. “O Paraná já teve grande produção de maçã e, lamentavelmente, perdeu importância ao longo do tempo. Ainda assim, é um dos celeiros do Brasil, com alta produtividade por metro quadrado, resultado de terra, clima, gente e tecnologia. O capital está mais caro e há desafios de infraestrutura, mas isso vem sendo construído”.
Representando a experiência prática do campo, a Arquiteta e Engenheira Regina Stopa, da Stopa Fruticultura, de Araucária (PR), compartilhou sua trajetória. “Integramos a agricultura familiar, começamos com peras e maçãs, buscamos conhecimento em diversos países e passamos a cultivar a maçã Monalisa, que tem excelente aceitação em Curitiba”. Segundo ela, hoje são quatro hectares com boa produção, apesar dos desafios, como a necessidade de ampliar câmaras frias e a escassez de mão de obra na colheita.
Importância econômica
“O objetivo da pesquisa é justamente enfrentar os desafios da cultura, e eles não são poucos. Não dominamos tudo, e é por isso que a pesquisa não para. O Brasil saiu da condição de importador de maçã para se tornar produtor e exportador, com volume e qualidade”, destacou o Eng. Agrônomo Ivan Dagoberto Faoro, no início de sua apresentação.
Lembrou que, hoje, a fruticultura ocupa cerca de 3 milhões de hectares e responde por aproximadamente 18% da força de trabalho do agronegócio. No caso da maçã, movimentou um valor bruto de produção de R$ 3,2 bilhões em 2024, com cerca de 1 milhão de toneladas colhidas e geração de 130 mil empregos diretos e indiretos. “É a principal fruta de clima temperado em volume e valor no país”, disse.
Segundo ele, o cultivo está concentrado no Sul do Brasil, com cerca de 33 mil hectares plantados, liderados por Santa Catarina, com 16 mil hectares, seguido pelo Rio Grande do Sul, especialmente na região de Vacaria, em expansão, e pelo Paraná, que hoje possui cerca de mil hectares, embora já tenha tido maior representatividade. “Há espaço para retomada no estado”, acentuou.
Melhoramento genético
Faoro ressaltou que a produção brasileira é dominada por dois grandes grupos. “Gala, responsável por cerca de 56% da produção, com frutos doces e de forte apelo comercial, e Fuji, também amplamente difundido”. Completou que outros cultivares representam apenas cerca de 6%, o que limita a diversificação. “Temos materiais promissores, como Monalisa, Luiza, Venice e Isadora, mas ainda pouco explorados comercialmente”.
O pesquisador explicou que o melhoramento genético é um processo longo e complexo, podendo levar de 13 a 17 anos entre cruzamentos e lançamento de uma nova cultivar. “A Epagri lançou 33 cultivares em 40 anos, um número expressivo diante da complexidade do processo. Trabalhamos com híbridos e mutações espontâneas, como Lisgala, Fuji Suprema, Maxi Gala e Galidia”.
Afirmou que cada cultivar tem exigência específica de frio, fator determinante para brotação e produtividade. “Cultivares como Eva e Lorenzo exigem menos frio e se adaptam melhor a regiões mais quentes, como áreas do Paraná, enquanto Gala e Fuji demandam maior acúmulo de frio. O manejo correto dessas variáveis é essencial para o desempenho produtivo e para evitar perdas por geadas ou baixa brotação”, explicou.
Cases de sucesso
Em sua palestra, pontuou que os sistemas de produção também evoluem. O modelo tradicional dá lugar a pomares modernos, com cobertura anti-granizo, investimento que pode ultrapassar R$ 100 mil por hectare, e ao chamado “muro frutal”, que melhora a insolação, facilita o manejo e aumenta a eficiência da colheita.
“Em termos de planejamento, a Epagri já trabalhou com escalonamento produtivo. Em Santa Catarina, por exemplo, é possível organizar o plantio com 13 cultivares diferentes, entre híbridos e mutações, garantindo até cinco meses de colheita e oferta ao longo de todo o ano com armazenamento adequado”.
Faoro finalizou apresentando cases de sucesso da Epagri. “A cultivar Gala Gui, lançada em 2019, já soma cerca de 160 hectares plantados e gerou R$ 1,8 milhão em royalties. Outro exemplo é a internacionalização de cultivares brasileiras como Luiza, Venice e Isadora, que, em parceria com um grupo italiano, originaram um clube de cultivares premiado na Europa, com projeção de até 4 mil hectares plantados e mais de R$ 3,5 milhões em retorno em royalties”, concluiu.
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