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Evento do IEP sobre Geotecnia reúne especialistas em busca de uma mineração mais segura

Promover o debate sobre soluções capazes de tornar a mineração mais segura, sustentável e tecnicamente eficiente foi o propósito do evento “Geotecnia aplicada à mineração”, realizado nesta terça-feira (16.06), pelo Instituto de Engenharia do Paraná (IEP), em parceria com a Associação Brasileira de Mecânica dos Solos e Engenharia Geotécnica (ABMS) – Núcleo Paraná-Santa Catarina. O encontro reuniu especialistas para discutir desde a descaracterização e o reforço de estruturas de contenção de rejeitos até tecnologias avançadas de monitoramento, instrumentação e geofísica aplicadas à gestão de riscos.

Representando o presidente do IEP, Eng. Eletricista Nelson Luiz Gomez, o diretor técnico da instituição, Eng. Civil Luiz Henrique Felipe Olavo, deu as boas-vindas aos participantes e destacou que a iniciativa fortalece a atuação do Instituto na difusão do conhecimento técnico e na promoção de debates estratégicos para a engenharia.

O encontro foi conduzido pelo Eng. Civil Marcelo Miqueletto, diretor financeiro da ABMS Paraná-Santa Catarina, que ressaltou a missão da entidade de fomentar o desenvolvimento da engenharia geotécnica. “Nosso objetivo é promover discussões técnicas, estimular a inovação e disseminar boas práticas que contribuam para a segurança das estruturas geotécnicas e a proteção da sociedade”.

Barragens mais seguras

O reforço e a descaracterização de barragens de mineração exigem soluções técnicas cada vez mais robustas, fundamentadas em investigação detalhada, monitoramento contínuo e rigor no cumprimento da legislação. Essa foi a principal mensagem do Eng. Civil Rafael Modesto, em sua palestra “Experiências em projetos de descaracterização e reforço de barragens de mineração”. Ao apresentar estudos de caso, mostrou como as tragédias registradas nas últimas décadas transformaram a engenharia geotécnica e elevaram os padrões de segurança no setor. “É importante olhar para tudo o que aconteceu e entender que cada uma dessas rupturas impulsionou a engenharia. Hoje temos estudos muito mais refinados e um cuidado muito maior com essas estruturas”, destacou.

Segundo Modesto, a evolução das normas, especialmente após os rompimentos de Fundão e Brumadinho, mudou completamente a forma de projetar, monitorar e recuperar barragens. Entre os avanços, ele destacou a adoção do Padrão Global da Indústria para Gestão de Rejeitos (GISTM), a proibição de novas barragens alteadas a montante e o fortalecimento da legislação brasileira, que passou a exigir maior controle durante todo o ciclo de vida das estruturas. Em um dos estudos apresentados, o Engenheiro explicou como uma investigação detalhada identificou um bolsão de material não compactado, responsável pelo surgimento de trincas em uma barragem. A solução envolveu um projeto de reforço localizado, capaz de elevar o fator de segurança da estrutura e permitir o retorno seguro da operação. “Quando aprofundamos o conhecimento sobre uma barragem, muitas vezes identificamos situações que exigem intervenções. A engenharia precisa responder rapidamente para garantir a estabilidade e a segurança”, afirmou.

Ao abordar a descaracterização de barragens, Modesto ressaltou que o processo vai muito além da remoção de rejeitos. Conforme explicou, a legislação determina que a estrutura deixe definitivamente de exercer a função de barragem, por meio de etapas como descomissionamento, controle hidrológico e hidrogeológico, estabilização e monitoramento permanente. Em um dos projetos apresentados, a alternativa adotada foi manter o reservatório, evitando a movimentação de milhões de metros cúbicos de rejeitos, e promover a estabilização da estrutura com aterros compactados, sistemas de drenagem e equipamentos operados remotamente, devido às restrições de acesso em áreas classificadas como Zona de Autossalvamento. “Ainda existe muito trabalho a ser feito na descaracterização das barragens e no reforço das estruturas existentes. Quanto mais investigamos, mais aprendemos sobre essas obras antigas. Os novos projetos já nascem muito mais completos, com conhecimento aprofundado e foco permanente na segurança”.

Terras raras estratégicas

As futuras operações de mineração de terras raras no Brasil precisam incorporar, desde o início, estudos aprofundados sobre o comportamento geotécnico dos rejeitos para evitar problemas estruturais e ambientais ao longo do tempo. O alerta foi feito pelo Eng. Civil Marcelo Heidemann na palestra “Rejeitos de Mineração de Terras Raras”. Ele trouxe os resultados de um projeto desenvolvido em parceria entre a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e a Universidade do Porto (FEUP), em Portugal. Destacou que o avanço da exploração desses minerais estratégicos exige planejamento técnico capaz de antecipar riscos. “Queremos construir os depósitos de rejeitos já conhecendo o comportamento desses materiais, em vez de correr atrás dos problemas depois. Essa é a grande motivação da pesquisa”.

Heidemann explicou que as terras raras são fundamentais para a transição tecnológica, sendo empregadas na fabricação de motores de veículos elétricos, turbinas eólicas, equipamentos eletrônicos e componentes de alta precisão. Apesar de o Brasil possuir uma das maiores reservas mundiais, a cadeia produtiva ainda é fortemente concentrada na China, que domina tanto a produção quanto o processamento desses elementos. Segundo o pesquisador, um dos principais desafios está no gerenciamento dos rejeitos gerados pelos processos de lixiviação, que permanecem impregnados por sais utilizados na extração. “O tipo de sal utilizado molda completamente o comportamento geotécnico do rejeito. Precisamos compreender como esse material evolui após a compactação e a ação das chuvas para garantir estabilidade e segurança no longo prazo”.

Os estudos conduzidos pela equipe mostram que a salinização altera propriedades fundamentais do solo, como plasticidade, compactação, sucção e resistência mecânica. Embora a presença de sais facilite a compactação inicial, o pesquisador alertou que a dessalinização provocada pelas chuvas pode modificar significativamente a estrutura interna do material, favorecendo expansão, perda de resistência e possíveis instabilidades. “Ainda não sabemos se esse comportamento representa um problema, mas sabemos que existe um risco real e pouco investigado. A literatura sobre o tema ainda é escassa, e é justamente essa lacuna que estamos procurando preencher”. Segundo Heidemann, compreender esse processo será decisivo para que a futura exploração de terras raras no Brasil avance com segurança, sustentabilidade e respaldo técnico.

Monitoramento inteligente

Os métodos geofísicos vêm se consolidando como ferramentas estratégicas para aumentar a segurança de barragens de rejeitos, permitindo identificar anomalias internas antes que evoluam para situações críticas. A afirmação foi de Gilvan Sá, Geólogo com mestrado em Engenharia Geotécnica, quando abordou o tema “Métodos Geofísicos Aplicados ao Monitoramento e Investigação de Barragens de Rejeito”, no evento. Ele demonstrou como a integração entre eletrorresistividade, interferometria sísmica, MASW e instrumentação convencional tornou possível diagnosticar problemas ocultos e direcionar intervenções de engenharia com maior precisão. “Geofísica, sozinha, gera muitas dúvidas. Mas, quando cruzamos esses dados com investigações diretas, monitoramento e modelos tridimensionais, ela se transforma em uma ferramenta poderosa para apoiar a tomada de decisões”, destacou.

Um dos estudos apresentados mostrou que a combinação dos diferentes métodos permitiu identificar uma área de elevada saturação provocada por um sistema de drenagem ineficiente, situação que não havia sido detectada apenas pelos projetos originais. A partir desse diagnóstico foram executadas intervenções corretivas, incluindo reforço da estrutura e readequação da drenagem, elevando o fator de segurança da barragem. O monitoramento também revelou que alterações na disposição dos rejeitos e nos processos operacionais influenciavam diretamente a velocidade de propagação das ondas sísmicas, um importante indicador da rigidez e estabilidade do maciço. “Os métodos geofísicos permitiram uma resposta rápida da engenharia para corrigir um problema que poderia evoluir para uma condição muito mais grave”.

Como conclusão, Gilvan Sá ressaltou que a tendência é ampliar a integração entre geofísica, monitoramento instrumental e modelagem geológico-geotécnica, tornando as análises cada vez mais completas e confiáveis. Segundo ele, validar diferentes métodos sobre a mesma estrutura reduz incertezas, melhora a compreensão do comportamento das barragens e pode, inclusive, otimizar custos de investigação e projeto. “Quanto mais informações integradas conseguimos reunir, maior é a capacidade de compreender a estrutura e tomar decisões seguras. Esse é o caminho para uma engenharia cada vez mais preventiva e eficiente”.

Inovação geotécnica

O Eng. Civil Wilson Soares Junior, falou sobre como a evolução da instrumentação geotécnica transformou o monitoramento de obras de mineração em um dos principais pilares da prevenção de acidentes e da gestão de riscos. Na palestra “Monitoramento e Instrumentação Aplicados a Obras de Mineração”, destacou que as mudanças ocorridas no setor nos últimos anos impulsionaram a adoção de tecnologias alinhadas às melhores práticas internacionais, permitindo acompanhar o comportamento das estruturas com muito mais precisão e rapidez. “Hoje existem soluções, técnicas e profissionais altamente capacitados. O Brasil está alinhado com o que há de mais avançado no mundo quando o assunto é monitoramento geotécnico, sempre com o objetivo principal de preservar vidas e garantir a segurança das estruturas”.

Entre as principais recomendações, defendeu a substituição do monitoramento exclusivamente manual por sistemas automatizados e híbridos, capazes de integrar diferentes sensores e tecnologias para fornecer informações contínuas, confiáveis e praticamente em tempo real. Segundo ele, essa combinação permite validar dados por diferentes métodos, reduzir incertezas e ampliar a capacidade de interpretar o comportamento das estruturas antes que ocorram situações críticas. “Não existe uma tecnologia capaz de resolver tudo sozinha. O caminho é combinar diferentes métodos para que um complemente as limitações do outro e ofereça informações consistentes para a tomada de decisão”, ressaltou. Também destacou o avanço de soluções como inclinômetros automatizados, TDR, GNSS, fibra óptica e transmissão de dados via redes sem fio e satélite, que ampliaram significativamente a capacidade de monitoramento mesmo em áreas remotas.

Ao concluir a apresentação, o Eng. Civil reforçou que nenhuma tecnologia substitui o conhecimento de engenharia. Segundo ele, a escolha dos sensores deve estar diretamente relacionada às características da estrutura e às respostas que se pretende obter durante seu ciclo de vida. “Sem uma boa engenharia não existe programa de monitoramento eficiente. O instrumento só faz sentido quando responde a uma questão fundamental sobre o comportamento da estrutura”. Completou que a integração entre sensores, sistemas automatizados, modelagem e interpretação técnica representa o futuro do monitoramento geotécnico, tornando as decisões mais rápidas, precisas e seguras.

Assista ao evento completo abaixo ou pelo Canal do IEP no YouTube:

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