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Seminário no IEP sobre inteligência artificial e os desafios do Século XXI reúne especialistas para debater o futuro da humanidade

Com uma proposta que se afasta das abordagens tradicionais sobre tecnologia, o Instituto de Engenharia do Paraná – IEP promoveu, nesta quinta-feira (16.04), o seminário “IA e os Desafios do Século XXI”, reunindo especialistas para discutir os impactos da inteligência artificial na sociedade contemporânea. Realizado no Centro de Eventos, em parceria com a Associação Paranaense de Engenheiros Eletricistas – APEE, o encontro colocou em pauta temas como ética, governança tecnológica e os limites de uma das mais disruptivas inovações do nosso tempo.

Na abertura, o Presidente do IEP, Eng. Eletricista Nelson Luiz Gomez, destacou o caráter multidisciplinar do evento e a necessidade de ampliar o debate sobre o papel da inteligência artificial no mundo atual. “O seminário traz nomes de destaque nas áreas de engenharia, tecnologia, direito e pesquisa científica, proporcionando uma visão abrangente sobre os avanços da IA e seus desdobramentos para a humanidade”, afirmou.

Ao dar as boas-vindas ao público, Gomez ressaltou que o seminário propõe uma reflexão além do olhar técnico, incorporando dimensões sociais e humanas ao debate. Ele apresentou a programação, composta por seis palestras, e destacou a realização simultânea de um curso de treinamento em softwares de inteligência artificial.

Transformação para a humanidade

A programação da manhã foi dedicada ao debate sobre as transformações profundas que a convergência entre inteligência artificial, nanotecnologia e engenharia genética pode provocar na sociedade. O bloco abordou a possibilidade de uma condição “transumana”, em que humanos e máquinas tendem a se fundir, e os limites éticos dessa evolução.

Abrindo o painel, o Eng. de Telecomunicações Roberto Menna apresentou a palestra “Um século de profunda transformação para a humanidade”, e iniciou sua apresentação com uma dúvida direta, “O que estou fazendo aqui?”. A inquietação, segundo ele, não era individual, mas compartilhada pela plateia. Para respondê-la, recuou no tempo e relembrou um evento sobre cibersegurança em que o tema da inteligência artificial surgiu de forma inesperada e, para ele, ainda superficialmente discutida.

Autor do livro “IA & Eu – quando a singularidade acontece”, Menna propôs um deslocamento de perspectiva. “Não é a inteligência artificial que está chegando até nós. Somos nós que estamos chegando a ela”, afirmou. A partir dessa inversão, defendeu que o debate precisa considerar o ser humano em sua totalidade, corpo, mente e um terceiro elemento que ultrapassa a lógica científica. “Não podemos prever o futuro ignorando partes essenciais de quem somos”.

Esse “terceiro fator”, como define, aproxima-se da espiritualidade, não necessariamente religiosa, mas ligada à experiência de transcendência. “A inteligência artificial não vive a dúvida, não atravessa o risco e não experimenta esse terceiro elemento”, disse. Para ele, a tecnologia cumpre com excelência funções como classificar, organizar e sintetizar dados, mas esbarra em limites fundamentais: “Ela não percebe aquilo que não percebe”.

Ao traçar uma linha evolutiva que parte da origem da vida até o surgimento do ser humano, Menna destacou a capacidade inédita de reflexão como marca distintiva da humanidade. Segundo ele, a história recente, especialmente após a revolução tecnológica, ampliou o domínio sobre o mundo exterior, mas afastou o indivíduo de sua dimensão interior. “Vivemos uma abundância inédita, mas também um esgotamento: não temos mais tempo para refletir”.

Na avaliação do palestrante, o desafio contemporâneo não está em rejeitar a inteligência artificial, mas em reposicioná-la. “Não se trata de demonizar nem glorificar a inteligência artificial, mas de colocá-la em seu lugar”. Para o futuro, ele aponta um caminho de integração: “Precisamos reunir o cientista e o místico em uma só pessoa”. E concluiu com um tom de aposta nas próximas gerações. “A humanidade levou bilhões de anos para chegar até aqui. Não será agora que deixará de avançar”.

Além do humano

Na sequência, a epistemóloga Virginia Chaitin conduziu a palestra “Transhumanismo e pós-humanismo em contexto”, ampliando o debate para além da tecnologia e reposicionando a questão no campo da existência humana. A partir da epistemologia, área que investiga a origem e a validade do conhecimento, ela propôs uma leitura crítica sobre os impactos da inteligência artificial. “A pergunta que se impõe é: quem é este ser humano que atravessa a porta da inteligência artificial?”, provocou. Em outro momento, reforçou que “não podemos discutir tecnologia sem revisitar o conceito de humano”, ao defender que o avanço científico exige reflexão filosófica proporcional.

Ao longo da exposição, Virginia articulou referências que atravessam ciência, filosofia e cultura, destacando que o transumanismo não se limita ao desenvolvimento tecnológico, mas envolve disputas éticas e conceituais. “O transumanismo é, antes de tudo, uma narrativa sobre superação, mas precisamos perguntar: superação de quê e para quê?”, afirmou. Segundo ela, embora o movimento prometa expandir capacidades físicas e cognitivas, mantém uma base materialista que frequentemente exclui dimensões subjetivas. “Há um risco em reduzir a experiência humana a dados e desempenho”, alertou.

A discussão avançou para a ideia de singularidade tecnológica, apresentada como um possível ponto de ruptura. “Estamos diante da possibilidade de criar inteligências que não compreenderemos plenamente”, disse. Ao mencionar alertas contemporâneos, como os do pesquisador Geoffrey Hinton, citou que “uma explosão de inteligência pode escapar à nossa capacidade de controle”. Para Virginia, o desafio é ético e civilizatório, “A humanidade não vai sobreviver, a não ser que valores de cuidado sejam incorporados à inteligência artificial. Não se trata apenas de prever o futuro, mas de decidir, conscientemente, que tipo de humanidade queremos preservar ou transformar”.

Novos horizontes

Encerrando o bloco, o matemático argentino-americano Gregory Chaitin, um dos criadores da teoria da informação algorítmica, abordou “Surpresas Tecnológicas, Experiências e Prospectos para o Futuro”. De acordo com ele, a trajetória da computação nas últimas sete décadas e meia foi marcada por um avanço exponencial, que levou máquinas rudimentares às atuais arquiteturas inteligentes. Chaitin resgatou as origens conceituais desse percurso, destacando o papel de Alan Turing e da chamada “Máquina Universal”, base teórica que tornou possível a construção dos computadores modernos. “A computação é um encontro raro entre matemática pura e engenharia prática. A inteligência artificial nasce justamente dessa convergência”.

Chaitin também revisitou a chamada “era de ouro” da inteligência artificial, quando pesquisadores como John McCarthy e Marvin Minsky apostavam na criação de máquinas capazes de simular o raciocínio humano. O otimismo, segundo ele, era alimentado por avanços como a linguagem Lisp, descrita pelo matemático como “uma linguagem de grande beleza matemática”. Ao mesmo tempo, reconheceu os equívocos daquele período, comentando que “nem toda ideia se revela frutífera, mas todas contribuem para o avanço científico”.

Ao projetar o futuro, Chaitin apontou para cenários que extrapolam o cotidiano tecnológico atual, incluindo o uso de inteligência artificial em missões espaciais de longa duração. Para ele, máquinas inteligentes podem superar limitações biológicas humanas e abrir caminhos inéditos na exploração do universo. “O tempo não é um obstáculo para as máquinas como é para nós”, observou. Entre incertezas e possibilidades, o matemático reforçou que as próximas gerações terão papel decisivo nesse processo, diante de um horizonte que, segundo ele, permanece “vasto e imprevisível”.

Após as apresentações, os palestrantes participaram de um debate com o público, mediado pelo engenheiro civil Omar Sabbag Filho, professor e gestor acadêmico da Universidade Federal do Paraná (UFPR).

Cibersegurança

No período da tarde, o foco se voltou às implicações práticas da inteligência artificial, especialmente no campo da segurança digital e dos impactos jurídicos e sociais da tecnologia. O Eng. de Telecomunicações Antônio Carlos Monclaro abriu o bloco com a palestra “A cibersegurança após o advento das IAs”, que teve como eixo central a relação entre inteligência artificial e segurança digital.

Monclaro apresentou a inteligência artificial como uma ferramenta técnica e poderosa, porém neutra, cuja aplicação reflete diretamente as intenções humanas. “A inteligência artificial não enxerga o mundo; ela processa dados estruturados preparados por nós”, afirmou, ao destacar a diferença entre a percepção humana e o funcionamento dos sistemas computacionais.

O palestrante ressaltou que o avanço das inteligências artificiais amplia um cenário já marcado entre ataque e defesa no ambiente digital. Segundo ele, agentes mal-intencionados encontram vantagens ao explorar vulnerabilidades conhecidas, as chamadas CVEs, enquanto profissionais de segurança precisam manter vigilância constante. “O atacante precisa acertar uma vez; o defensor precisa acertar sempre”, sintetizou. Entre as principais ameaças, destacou fraudes financeiras, espionagem, ataques de negação de serviço e engenharia social, além do uso crescente de inteligência artificial para sofisticar práticas como phishing e invasões por força bruta.

Durante a palestra, Monclaro destacou o potencial e os riscos do sistema Claude Mythos Preview, da Anthropic. “Estamos diante de sistemas capazes de analisar estruturas complexas e identificar vulnerabilidades que passaram despercebidas por anos”. Ele citou um episódio crítico envolvendo a ferramenta, em que a omissão de uma palavra em comandos ampliou o alcance de informações sensíveis, alertando que “não é apenas a tecnologia que precisa ser segura, mas também os processos e a interação humana com ela”. Para Monclaro, o caso reforça que “a segurança digital não pode ser tratada como uma abstração”, já que falhas no ambiente virtual podem gerar consequências graves no mundo real, com impactos econômicos, sociais e políticos.

Também alertou para o uso de agentes autônomos baseados em inteligência artificial, sistemas capazes de executar tarefas e interagir com múltiplos serviços, introduzem riscos inéditos, como a manipulação por prompt injection e decisões imprevisíveis fora de ambientes controlados. “Estamos inserindo agentes dentro de empresas e casas sem controle total sobre suas ações”, observou. Para o especialista, o futuro da cibersegurança dependerá da adaptação rápida dos profissionais e do fortalecimento de estratégias defensivas diante de tecnologias cada vez mais rápidas, complexas e potencialmente vulneráveis.

Impactos práticos

A Eng. Civil e especialista em Direito Digital Cinthia Obladen de Almendra Freitas apresentou “Reflexos no Direito a partir da IA – uma perspectiva a partir de não-coisas”, destacando que o avanço da inteligência artificial impõe desafios inéditos ao ordenamento jurídico, especialmente em áreas como relações de trabalho mediadas por plataformas digitais, responsabilidade civil e penal e proteção de dados. “O Direito ainda busca respostas para fenômenos que evoluem em ritmo muito mais acelerado do que a própria legislação”, afirmou.

Ao abordar os impactos práticos, a palestrante chamou atenção para lacunas normativas em casos envolvendo tecnologias emergentes, como veículos autônomos e sistemas de reconhecimento facial. Também ressaltou as tensões no campo dos direitos autorais diante da produção de conteúdo por inteligência artificial. “A legislação atual não acompanha a velocidade da inovação tecnológica, o que nos obriga a interpretar normas pensadas para outra realidade. Essa defasagem amplia inseguranças jurídicas”.

Cinthia fez comentários sobre o conceito de “não-coisas”, inspirado na filosofia contemporânea, e que propõe repensar categorias clássicas do Direito, especialmente o direito das coisas, diante de uma realidade marcada por dados, algoritmos e representações digitais. “Não lidamos mais apenas com objetos materiais, mas com fluxos de informação que desafiam noções tradicionais como posse e propriedade. Crimes digitais, por exemplo, não envolvem necessariamente a subtração física, mas a violação de sistemas e o acesso indevido a dados”.

Outro fator de risco apontado foi a opacidade dos sistemas de inteligência artificial. “A dificuldade de compreender como algoritmos chegam a determinadas decisões, fenômeno conhecido como ‘caixa-preta’, pode gerar vieses e discriminações, além de comprometer princípios jurídicos como a transparência”. O cenário exige uma mudança de paradigma e maior integração entre áreas técnicas e jurídicas. “Não podemos regular aquilo que não compreendemos. O futuro do Direito passa, necessariamente, pelo entendimento profundo da tecnologia”, concluiu.

Desafio humano digital

A evolução da inteligência artificial e seus impactos na sociedade contemporânea foram o eixo central da palestra “IA e suas consequências – escolhas humanas num século de máquinas”, conduzida pelo Eng. Civil Flávio Bortolozzi. Ao contextualizar o avanço da tecnologia, o palestrante resgatou desde os sistemas especialistas dos anos 1990 até a atual inteligência artificial generativa, destacando uma ruptura significativa. “O problema central não está na tecnologia em si, mas na falta de controle sobre como essa inteligência aprende e responde”. Segundo ele, enquanto a inteligência artificial opera sob supervisão humana e aplicações específicas, a generativa absorve conteúdos amplos da internet, reproduzindo inclusive seus vieses.

Bortolozzi analisou a transformação da relação entre conhecimento e aprendizado, afirmando que com a capacidade de fornecer respostas imediatas, a inteligência artificial altera profundamente os processos cognitivos e educacionais; não há aprendizado, mas o risco da terceirização do pensamento. “Nesse cenário, decisões passam a ser tomadas com base em sistemas cuja lógica nem sempre é compreendida, o que exige uma revisão urgente dos modelos de formação profissional e do desenvolvimento do pensamento crítico”, alertou.

Ao final, o palestrante reforçou que o maior desafio do século não é tecnológico, mas educacional. Para ele, a centralidade deve permanecer na formação humana, capaz de interpretar, questionar e decidir com autonomia diante das máquinas. “Se não repensarmos a educação, corremos o risco de formar usuários de ferramentas, e não pensadores”, destacou. Bortolozzi apontou a necessidade de um reposicionamento das instituições de ensino e da sociedade, diante de uma realidade em que a inteligência artificial amplia capacidades, mas também impõe novos limites à compreensão humana.

O bloco foi encerrado com perguntas do público, mediadas pelo Eng. Elétrico Alexandre Rasi Aoki, professor do Departamento de Engenharia Elétrica da UFPR.

Assista ao evento completo abaixo ou pelo Canal do IEP no YouTube:

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