A atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) representa uma mudança significativa na gestão da Segurança e Saúde no Trabalho ao tornar obrigatória a identificação, a avaliação e o gerenciamento dos fatores de riscos psicossociais no ambiente corporativo. Com a revisão da norma, a saúde mental deixa de ser uma ação opcional das áreas de Recursos Humanos e passa a integrar o Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO), exigindo das empresas medidas efetivas de prevenção.
Para esclarecer os principais pontos da revisão da NR-1, a Câmara Técnica de Engenharia de Segurança do Trabalho e a Câmara Técnica de ESG do Instituto de Engenharia do Paraná (IEP) promoveram o evento “NR-1: sua empresa está preparada?”, com palestra de Elenita Betlen, presidente da Associação Brasileira de Profissionais de Recursos Humanos no Estado do Paraná. Com mais de 30 anos de atuação na área, ela construiu uma trajetória sólida unindo estratégia, gestão e desenvolvimento humano.
Na abertura do encontro, realizado nesta quinta-feira (03.07), no Centro de Eventos do IEP, o Presidente, Eng. Eletricista Nelson Luiz Gomez, enfatizou que “é preciso entender que a atualização da NR-1 representa um dos temas mais relevantes para o futuro da gestão das organizações. A incorporação dos fatores de riscos psicossociais à norma amplia o olhar sobre a saúde e a segurança no trabalho e desafia empresas, gestores e profissionais a adotarem uma cultura de prevenção mais efetiva”.
Ele destacou que no IEP esse tema vem sendo tratado de forma preventiva e contínua. “Elaboramos um manual de prevenção ao assédio moral e ao assédio sexual no ambiente de trabalho e promovemos treinamentos com todos os colaboradores, conduzidos por especialistas. Nossa equipe recebe orientações sobre a norma e sabe como agir diante de situações dessa natureza, tanto para prevenir quanto para identificar e encaminhar corretamente qualquer ocorrência”.
Mudança de cultura
Na palestra “NR-1 Descomplicada: desmistificando a implantação”, Elenita destacou que a principal mudança da norma está na forma como as organizações precisam enxergar o adoecimento relacionado ao trabalho. “A legislação não obriga as empresas a tratar a saúde mental dos colaboradores, mas determina que sejam gerenciados os fatores organizacionais capazes de provocar sofrimento, como excesso de demandas, metas inalcançáveis, assédio, lideranças despreparadas, falhas de comunicação e insegurança psicológica”, explicou.
Ela lembrou que a revisão da NR-1 ocorre em um cenário de crescimento dos transtornos mentais relacionados ao trabalho. Dados mostram que, mundialmente, depressão e ansiedade provocam a perda de cerca de 12 bilhões de dias de trabalho por ano, gerando um impacto econômico estimado em US$ 1 trilhão. No Brasil, os transtornos mentais já figuram entre as principais causas de adoecimento ocupacional.
A especialista também criticou a falsa percepção de que a adequação à norma pode ser feita apenas com formulários, pesquisas de clima ou planos de ação padronizados. “A NR-1 não se implanta com formulários. O papel aceita tudo, mas documentos não mudam comportamentos. A verdadeira implantação exige mudança de cultura, escuta ativa, preparo das lideranças e gestão efetiva dos fatores de risco psicossociais. O objetivo da norma não é produzir burocracia, mas evitar que as pessoas adoeçam dentro das organizações”.
Outro alerta apresentado pela palestrante é que muitos profissionais adoecem de forma silenciosa, mantendo produtividade e rotina aparentemente normais até que o desgaste se torne evidente. “Identificar sinais que não aparecem nos indicadores tradicionais e construir ambientes em que os trabalhadores se sintam seguros para relatar dificuldades são os maiores desafio da gestão”. Ela acrescentou que “compreender o sofrimento humano dentro das empresas exige visão sistêmica, escuta organizacional e responsabilidade técnica. O diagnóstico é apenas o começo. O que protege as pessoas é a implementação efetiva de medidas para reduzir os riscos identificados”.
Gestão dos riscos psicossociais
A atualização da NR-1 determina que as empresas identifiquem, avaliem e controlem os fatores de riscos psicossociais presentes na organização do trabalho, como sobrecarga de atividades, pressão excessiva por metas, assédio moral e sexual, insegurança no emprego, falta de reconhecimento, conflitos interpessoais e deficiência de apoio das lideranças.
Elenita ressaltou que a revisão da norma também amplia a responsabilidade jurídica das empresas. Organizações que deixarem de identificar, registrar e mitigar adequadamente os fatores de riscos psicossociais poderão enfrentar autuações, ações trabalhistas, aumento dos afastamentos, absenteísmo, presenteísmo e danos à reputação. “Cumprir a legislação não significa apenas produzir documentos, mas demonstrar que os riscos estão sendo efetivamente gerenciados no dia a dia”.
Entre as etapas previstas pela norma estão o diagnóstico estruturado dos fatores de risco, o planejamento das ações preventivas, a implantação das medidas de controle e o monitoramento contínuo dos resultados. O processo deve considerar a realidade de cada organização, envolvendo lideranças, trabalhadores, CIPA, SESMT e alta administração. A negligência pode gerar consequências expressivas, segundo a palestrante. Empresas que deixam de identificar, registrar e controlar esses riscos ficam sujeitas a autuações dos órgãos fiscalizadores, indenizações por danos morais e materiais, responsabilização civil e, em casos mais graves, até criminal, além dos prejuízos à imagem institucional.
Para Elenita, a atualização da NR-1 representa uma mudança definitiva na forma como as empresas devem enxergar a gestão de pessoas. “Se durante anos protegemos o corpo com equipamentos de proteção individual, agora precisamos aprender a proteger também a mente. O invisível passou a fazer parte da legislação, e cuidar da saúde mental tornou-se uma responsabilidade estratégica para qualquer organização”, concluiu.
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Assista ao evento completo abaixo ou pelo Canal do IEP no YouTube:
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